“Um site que tenha personalidade e coragem.”

– Gustavo Yugi H. Vasconcellos

Sendo franco: não entendo minha geração (e talvez nem a mim).

Cada geração tem o fim do mundo que merece

Uma vez, no metrô, exausto entre prazos e crises existenciais empacotadas como metas trimestrais, olhava distraidamente pela janela. Nada de novo: concreto, propaganda de coaching e o reflexo opaco da minha própria exaustão. Até que algo que beirava o cômico — ou o trágico, dependendo do referencial — me puxou de volta à realidade: uma moça, serena, ocupava um assento preferencial com um bebê no colo. Ou quase isso. O bebê… era de silicone. Um reborn. Um boneco com traços tão verossímeis quanto o mundo que criamos: hiper-real, mas vazio.

É claro, cada um lida com o caos como pode. E como disse Sartre, estamos todos condenados à liberdade — mesmo que essa liberdade seja brincar de maternidade fake em plena distopia. O problema não é o boneco. É o que ele representa. É o silêncio cúmplice do vagão, o não olhar, o aceitar como “normal” aquilo que grita.

Como foi que chegamos até aqui?

A pergunta parece simples, mas guarda o abismo. Nietzsche já dizia que, ao encarar o abismo, ele também nos encara. E talvez seja isso que evitamos: o reflexo nu e cru do nosso tempo. Vivemos a era da anestesia moral, onde o absurdo deixou de ser exceção e virou protocolo. A guerra? Um trending topic. A tragédia? Um reels com música triste. A dor? Um emoji de coração partido, antes do próximo vídeo de dancinha.

A vida virou caricatura de si mesma — e pior, sem graça. A indiferença venceu com folga. Hannah Arendt tentou nos alertar sobre a banalidade do mal, mas talvez o que não esperávamos era a banalidade de tudo. Da maldade, da bondade, da existência. O sujeito contemporâneo não é mais o herói trágico, mas o figurante zumbi: desliza o dedo, suspira e compartilha.

Talvez nunca tenhamos sido empáticos. A empatia pode ter sido só mais um produto na prateleira ética do século passado, agora vencido. Talvez sejamos, como diria Camus, apenas criaturas tentando fingir sentido diante do absurdo — mas com Wi-Fi.

A pergunta, então, volta: como foi que chegamos até aqui?

Não sei. E, francamente, pouco importa. O que resta é a performance do colapso: fingir que se importa, publicar textão, comentar “forças” e seguir. O fim do mundo não vem com trombetas. Vem com notificações. E com bebês reborn.

Se nada mais nos emociona, que pelo menos nos reste o desconforto. E se nem isso, então parabéns: você já está preparado para o próximo colapso — que será televisionado, editado e esquecido em 24 horas.

Só não me venha depois fingir surpresa. Não abrace bonecos de silicone como se tivesse reencontrado o afeto num mundo que sequer lembra o que é sentir. A verdade é uma só: cada geração tem o fim do mundo que merece. E o nosso tem filtro, trilha sonora e pouca vergonha.

– Yugi Vasconcellos

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