Uma semana de conquistas e constrangimentos diplomáticos que, sejamos francos, só pegou de surpresa quem ainda acredita em blindagem dentro do Planalto

Mais uma vez, o governo Lula embarcou em uma missão internacional com uma pauta robusta e um enredo promissor. Investimentos, cooperação e fortalecimento de alianças — desta vez com a China de Xi Jinping. Mas o que deveria ser uma vitrine estratégica se transformou, mais uma vez, em um palco de constrangimento. Não por ação da oposição, mas por imprudência interna.
Durante um jantar com autoridades chinesas, a primeira-dama, Janja da Silva, resolveu opinar — como já virou hábito — sem medir cenário, nem impacto. Segundo o portal G1, ela afirmou que o algoritmo do TikTok favorece conteúdos da direita. A frase, desnecessária e deslocada do tom institucional que o momento exigia, foi prontamente vazada por um aliado. Sim, por um aliado. Não foi a oposição que armou a bomba. Foi alguém de dentro que acendeu o pavio.
E, como em toda crise mal gerida, o Planalto reagiu atacando o vazamento, não o erro de origem. Lula, visivelmente irritado, chamou de “pachorra” a exposição da fala de Janja e sugeriu que o ministro incomodado deveria ter se retirado. Um escândalo tratado como problema de etiqueta. A desordem é tanta que agora o crime não é falar demais, é deixar vazar.
Vale lembrar: essa não é a primeira vez que Janja se excede. Em novembro de 2023, durante a cúpula do G20, ela insultou o bilionário Elon Musk em um evento paralelo com a sociedade civil. Se o alvo é antipático, a fala vira símbolo de coragem. Mas não é. Bilionários não merecem condescendência — mas a liturgia do cargo exige mais do que impulsos. Exige noção. E, cada vez mais, parece faltar isso à atual primeira-dama. Janja age como militante, fala como ativista, mas ocupa um papel institucional. E sim: isso importa.
Mais grave que os escorregões é o padrão. O governo coleciona episódios de improviso, espontaneidade mal calibrada e vazamentos desastrosos. A falta de coordenação entre os próprios aliados, o amadorismo em gerir crises e a reincidência de ruídos internos revelam não apenas desorganização, mas ausência de comando político.
O resultado está aí: um governo que tropeça nas próprias palavras, que não controla seus quadros e que, pior, subestima os danos. O “fogo amigo” virou rotina. E a oposição? Só precisa esperar. Não é ela quem cava os buracos — é o próprio governo quem se joga neles.
Porque, convenhamos: não foi surpresa. Foi só mais um capítulo de uma história mal ensaiada, onde o improviso reina, a vaidade ecoa e o prejuízo institucional não encontra freio. No palco internacional, o Brasil precisa de diplomacia — mas o que entregou foi espetáculo. De novo.
– Yugi Vasconcellos
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