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– Gustavo Yugi H. Vasconcellos

Ostentação fora do normal: A que ponto nosso dinheiro está valendo mais do que nossa humanidade?

Em 2013, o funkeiro Mc Léo da Baixada lançou a música “Ostentação Fora do Normal”, sem imaginar que o título da canção se tornaria, mais de uma década depois, um retrato quase sociológico de uma cultura cada vez mais centrada em aparências, status e consumo exagerado. Na letra, ele canta sobre conquistas materiais, carros de luxo, bebidas caras e fama — elementos que, para muitos, representam sucesso e superação. Mas o que está por trás dessa estética de ostentação?

É compreensível: quem vem de um lugar onde nunca teve nada, onde foi ignorado, excluído ou humilhado, pode enxergar na ostentação uma forma legítima de existir — e de resistir. Ostentar, nesse sentido, não é apenas esbanjar; é gritar para o mundo: “eu venci”. É tentar preencher, com ouro e brilho, as lacunas deixadas pela pobreza, pelo racismo estrutural e pela exclusão social.

Em uma conversa na madrugada de um domingo com um amigo (quase) jornalista como eu, Matheus Figueira, falávamos sobre o futuro — e eu disse, com toda sinceridade: “não quero me tornar rico. Quero só escrever o que penso e colocar um tijolo de mudança no mundo.” Logo depois, compartilhei com ele como a morte do meu pai, no ano passado, mudou minha forma de ver a vida. Foi nesse momento que Figueira disparou uma frase que, embora simples, se tornou a centelha para o início deste artigo: “Ostentação é o que tá acabando com o mundo.”

Essa frase ressoou. Porque até que ponto esse desejo de ser visto, notado e respeitado não nos faz reproduzir justamente a lógica opressora que antes nos esmagava? É aí que mora o perigo. Quando o sonho do oprimido vira se tornar o opressor (como já alertava o educador Paulo Freire), a cadeia se perpetua. Trocamos a solidariedade pela competição. A empatia pelo deboche. O coletivo pelo individualismo.

A ostentação, que poderia ser um símbolo de resistência e afirmação, vira um espetáculo vazio, movido a curtidas, views e validação externa. Um carro importado, um tênis de grife, uma garrafa de uísque caríssimo: tudo vira símbolo de poder — mesmo que, por dentro, continue a faltar dignidade, autoestima e pertencimento.

Esse fenômeno ganhou ainda mais força com o surgimento de influenciadores digitais que vendem ilusões de riqueza fácil. Muitos promovem casas de apostas e ostentam vidas de luxo, fazendo parecer que tudo foi conquistado por meio desses métodos duvidosos. Para o inconsciente coletivo — especialmente de quem não teve acesso a uma educação crítica ou oportunidades estruturadas —, a impressão é de que o sucesso está a um clique de distância. O que não se revela, no entanto, é que boa parte desses “influencers” já veio de famílias abastadas, com privilégios que nunca foram mencionados nas legendas patrocinadas.

É triste constatar isso, mas deixo esse tema — casas de aposta e influências distorcidas — para um artigo próprio, já que merecem uma análise mais profunda e dedicada.

Por ora, o que nos resta é refletir: será que estamos mesmo vencendo… ou só nos adaptando a um jogo que nunca foi feito para a gente ganhar?

Nesse jogo do neoliberalismo, o “ganhar” nunca foi uma opção viável. Somos, no máximo, marionetes satisfeitas com pequenas doses de dopamina digital e falsas promessas de ascensão. E se você está confortável com essa informação, tudo bem — não quero que pense como eu. Mas é preciso, ao menos, saber que há algo por trás da cortina.

Como dizia Hannah Arendt, em As Origens do Totalitarismo: “A propaganda é à democracia o que a violência é ao totalitarismo.” E talvez a maior propaganda dos nossos tempos seja justamente essa: a de que todos podem vencer, desde que se esforcem o suficiente — ignorando, convenientemente, que alguns já largam da linha de chegada, enquanto outros nem sequer têm tênis para correr.

A ostentação, no fim das contas, virou o novo ópio do povo: um espetáculo reluzente onde poucos brilham de verdade, e muitos se queimam tentando alcançar o brilho alheio. E seguimos aplaudindo — sem saber se estamos na plateia hipnotizada pelo luxo de mentira ou no meio da arena, prestes a ser massacrados, iludidos por um espetáculo que nunca foi feito para nos salvar, mas sim para nos entreter enquanto sangramos em silêncio, em detrimento da riqueza de outros.

Bem-vindo ao mundo.

– Yugi Vasconcellos

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