“Um site que tenha personalidade e coragem.”

– Gustavo Yugi H. Vasconcellos

Categoria: Artigo de Opinião

  • A conta chegou — e veio 50% mais cara.

    Lara Abreu / Arte Metrópoles

    A recente decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 50% sobre a importação de aço e alumínio brasileiros não é apenas um movimento econômico. É também um sinal político. Um lembrete de que, no jogo global, cada país defende seus interesses — mesmo quando isso contraria os discursos de livre mercado e cooperação.

    Diante disso, cabe ao Brasil não apenas reagir pontualmente, mas refletir sobre qual posição deseja ocupar nesse tabuleiro. Por muito tempo, apostamos na via diplomática, no diálogo constante e na construção de pontes — muitas vezes, mesmo quando essas pontes não nos levavam a lugar algum. Defendemos a abertura comercial, buscamos acordos bilaterais e confiamos que, com boa vontade, haveria espaço para todos. Mas o mundo de hoje, mais fragmentado e protecionista, exige outra maturidade.

    A tese da reciprocidade tributária não surge como retaliação ou revanchismo, mas como um princípio de equilíbrio. Se um parceiro comercial impõe barreiras injustificadas, é razoável repensar as contrapartidas oferecidas. Isso não significa fechar-se para o mundo, mas sim adotar uma postura de respeito mútuo e soberania consciente.

    Nesse contexto, é inevitável pensar nos BRICS. O bloco — composto por países que, como o Brasil, muitas vezes se veem às margens das grandes decisões mundiais — pode representar mais do que uma aliança simbólica. Ele pode ser a base para novas rotas de cooperação, menos dependentes das grandes potências e mais abertas a uma lógica de desenvolvimento conjunto e respeito à diversidade econômica.

    O que está em jogo não é apenas o preço do aço, mas o valor das escolhas que fazemos como nação. Entre aceitar silenciosamente ou repensar com estratégia, há um intervalo decisivo. Um espaço para reflexão madura sobre soberania, justiça comercial e projeção internacional.

    A tarifa é alta, mas o custo da passividade pode ser ainda maior. É tempo de pensar menos em agradar e mais em afirmar: com responsabilidade, com equilíbrio — e com coragem.

    – Yugi Vasconcellos

  • Para falar a verdade, não esperava nada de diferente de Zambelli.

    © Lula Marques/ Agência Brasil

    A surpresa seria se tivesse agido com inteligência. Mas não: Carla Zambelli, fiel escudeira de um bolsonarismo que já ruiu há tempos, decidiu novamente se enredar em seus próprios delírios e, como de costume, tropeçou na própria arrogância. Fugiu. E fugiu mal. Fugiu como quem sabe que deve — e deve?

    A Interpol incluiu, nesta quinta-feira (5), o nome da deputada Carla Zambelli (PL-SP) na lista de foragidos internacionais. A inclusão atende a um pedido da Polícia Federal (PF), em cumprimento da determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Sim, Zambelli virou oficialmente uma foragida — agora com alcance global. É o ápice de uma trajetória que mistura oportunismo, desinformação e desprezo pela institucionalidade.

    A deputada, que já protagonizou cena de arma em punho em plena rua durante o período eleitoral, agora tenta escapar da responsabilidade como quem foge de um espelho: tem pavor do reflexo da própria conduta. Zambelli é o retrato mais caricato de uma direita brasileira que se diz moralista, mas tropeça nos próprios pecados — e ainda quer posar de vítima.

    Fugir, nesse caso, não é apenas uma metáfora política. É literal, físico, vexatório. E burro. A tentativa de escapar das consequências jurídicas — ou midiáticas — só reforça o que já se sabia: Carla Zambelli não é vítima de um sistema opressor. É cúmplice de um projeto de poder que falhou, que fede a autoritarismo — e como diria Hannah Arendt, o mal, muitas vezes, não é monstruoso, apenas medíocre. E, nesse caso, também digitalmente rastreável.

    O “não esperava nada de diferente” não é desdém, é constatação. A previsibilidade do erro não torna o erro menor — só torna mais gritante o quanto a política brasileira ainda está refém de figuras que preferem o espetáculo ao debate, a bravata à construção, a fuga à responsabilidade.

    Burra? Talvez. Covarde? Certamente. Mas, acima de tudo, fiel ao roteiro que escolheu para si: o de alguém que construiu a própria ruína acreditando estar em guerra santa.

    Yugi Vasconcellos

  • Ostentação fora do normal: A que ponto nosso dinheiro está valendo mais do que nossa humanidade?

    Em 2013, o funkeiro Mc Léo da Baixada lançou a música “Ostentação Fora do Normal”, sem imaginar que o título da canção se tornaria, mais de uma década depois, um retrato quase sociológico de uma cultura cada vez mais centrada em aparências, status e consumo exagerado. Na letra, ele canta sobre conquistas materiais, carros de luxo, bebidas caras e fama — elementos que, para muitos, representam sucesso e superação. Mas o que está por trás dessa estética de ostentação?

    É compreensível: quem vem de um lugar onde nunca teve nada, onde foi ignorado, excluído ou humilhado, pode enxergar na ostentação uma forma legítima de existir — e de resistir. Ostentar, nesse sentido, não é apenas esbanjar; é gritar para o mundo: “eu venci”. É tentar preencher, com ouro e brilho, as lacunas deixadas pela pobreza, pelo racismo estrutural e pela exclusão social.

    Em uma conversa na madrugada de um domingo com um amigo (quase) jornalista como eu, Matheus Figueira, falávamos sobre o futuro — e eu disse, com toda sinceridade: “não quero me tornar rico. Quero só escrever o que penso e colocar um tijolo de mudança no mundo.” Logo depois, compartilhei com ele como a morte do meu pai, no ano passado, mudou minha forma de ver a vida. Foi nesse momento que Figueira disparou uma frase que, embora simples, se tornou a centelha para o início deste artigo: “Ostentação é o que tá acabando com o mundo.”

    Essa frase ressoou. Porque até que ponto esse desejo de ser visto, notado e respeitado não nos faz reproduzir justamente a lógica opressora que antes nos esmagava? É aí que mora o perigo. Quando o sonho do oprimido vira se tornar o opressor (como já alertava o educador Paulo Freire), a cadeia se perpetua. Trocamos a solidariedade pela competição. A empatia pelo deboche. O coletivo pelo individualismo.

    A ostentação, que poderia ser um símbolo de resistência e afirmação, vira um espetáculo vazio, movido a curtidas, views e validação externa. Um carro importado, um tênis de grife, uma garrafa de uísque caríssimo: tudo vira símbolo de poder — mesmo que, por dentro, continue a faltar dignidade, autoestima e pertencimento.

    Esse fenômeno ganhou ainda mais força com o surgimento de influenciadores digitais que vendem ilusões de riqueza fácil. Muitos promovem casas de apostas e ostentam vidas de luxo, fazendo parecer que tudo foi conquistado por meio desses métodos duvidosos. Para o inconsciente coletivo — especialmente de quem não teve acesso a uma educação crítica ou oportunidades estruturadas —, a impressão é de que o sucesso está a um clique de distância. O que não se revela, no entanto, é que boa parte desses “influencers” já veio de famílias abastadas, com privilégios que nunca foram mencionados nas legendas patrocinadas.

    É triste constatar isso, mas deixo esse tema — casas de aposta e influências distorcidas — para um artigo próprio, já que merecem uma análise mais profunda e dedicada.

    Por ora, o que nos resta é refletir: será que estamos mesmo vencendo… ou só nos adaptando a um jogo que nunca foi feito para a gente ganhar?

    Nesse jogo do neoliberalismo, o “ganhar” nunca foi uma opção viável. Somos, no máximo, marionetes satisfeitas com pequenas doses de dopamina digital e falsas promessas de ascensão. E se você está confortável com essa informação, tudo bem — não quero que pense como eu. Mas é preciso, ao menos, saber que há algo por trás da cortina.

    Como dizia Hannah Arendt, em As Origens do Totalitarismo: “A propaganda é à democracia o que a violência é ao totalitarismo.” E talvez a maior propaganda dos nossos tempos seja justamente essa: a de que todos podem vencer, desde que se esforcem o suficiente — ignorando, convenientemente, que alguns já largam da linha de chegada, enquanto outros nem sequer têm tênis para correr.

    A ostentação, no fim das contas, virou o novo ópio do povo: um espetáculo reluzente onde poucos brilham de verdade, e muitos se queimam tentando alcançar o brilho alheio. E seguimos aplaudindo — sem saber se estamos na plateia hipnotizada pelo luxo de mentira ou no meio da arena, prestes a ser massacrados, iludidos por um espetáculo que nunca foi feito para nos salvar, mas sim para nos entreter enquanto sangramos em silêncio, em detrimento da riqueza de outros.

    Bem-vindo ao mundo.

    – Yugi Vasconcellos

  • Carla Zambelli: Um caso de burrice aguda com abandono partidário.

    Lula Marques / EBC

    Deu ruim para Carla Zambelli. E não foi pouco. Por unanimidade, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou a deputada federal do PL de São Paulo a dez anos de prisão pelos crimes de invasão ao sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e inserção de dados falsos. A decisão incluiu ainda a perda do mandato parlamentar, um detalhe nada irrelevante para quem costumava bradar por “liberdade” enquanto sufocava o próprio bom senso. Ao lado dela, caiu também o hacker Walter Delgatti Neto, condenado a oito anos e três meses, embora este, convenhamos, soubesse bem melhor o que estava fazendo — só errou no cliente.

    Zambelli, por sua vez, protagonizou uma sequência de atos que flertam com a insanidade e se casam com a estupidez. Não há outro diagnóstico senão burrice aguda. Difícil encontrar termo mais adequado para descrever alguém que, como parlamentar federal, resolve se aliar a um hacker conhecido por vazar mensagens da Lava Jato achando que ninguém notaria a fraude no sistema do CNJ. Spoiler: notaram.

    Mais grave ainda é a desorientação ideológica que escancara seu isolamento político. Uma deputada que já foi braço-direito de Bolsonaro, hoje não tem sequer o amparo simbólico do seu partido, o PL. Valdemar da Costa Neto — que, apesar de seus próprios problemas com a Justiça, sabe farejar prejuízo — não mexeu uma palha para defender sua pupila. Talvez porque tenha percebido que Carla se tornou um estorvo mais do que um ativo eleitoral. Quando até o bolsonarismo mais radical te deixa falando sozinha, é porque a coisa realmente degringolou.

    No fundo, Zambelli é um retrato do bolsonarismo levado às últimas consequências: autoritário, paranoico, e perigosamente incompetente. Mas sua queda não deve ser lida apenas como castigo individual; ela é também um aviso. A política, mesmo na era da desinformação, ainda cobra caro de quem a trata como um jogo de memes e bravatas.

    Quanto ao hacker Delgatti, é difícil sentir pena. Um sujeito que já transitou entre vazar mensagens de procuradores, tentar se associar ao bolsonarismo e depois se dizer arrependido, não parece exatamente confiável. Sua pena foi menor, mas sua ingenuidade calculada custou caro — embora não tanto quanto a estupidez genuína de Zambelli.

    A verdade é que, no fim, todos caíram. Mas se Delgatti tropeçou numa jogada arriscada, Zambelli se atirou de cabeça em um buraco cavado com as próprias mãos — e ainda achou que seria ovacionada ao sair do outro lado.

    Spoiler final: não vai sair tão cedo.

    Yugi Vasconcellos

  • Janja falou, aliado vazou — e a oposição comemorou.

    Uma semana de conquistas e constrangimentos diplomáticos que, sejamos francos, só pegou de surpresa quem ainda acredita em blindagem dentro do Planalto

    Pequim, China,14.04.2023 – Cerimônia de boas-vindas do presidente Xi Jinping ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e à primeira-dama, Janja Lula da Silva, no Grande Palácio do Povo, em Pequim. Foto: Ricardo Stuckert/PR

    Mais uma vez, o governo Lula embarcou em uma missão internacional com uma pauta robusta e um enredo promissor. Investimentos, cooperação e fortalecimento de alianças — desta vez com a China de Xi Jinping. Mas o que deveria ser uma vitrine estratégica se transformou, mais uma vez, em um palco de constrangimento. Não por ação da oposição, mas por imprudência interna.

    Durante um jantar com autoridades chinesas, a primeira-dama, Janja da Silva, resolveu opinar — como já virou hábito — sem medir cenário, nem impacto. Segundo o portal G1, ela afirmou que o algoritmo do TikTok favorece conteúdos da direita. A frase, desnecessária e deslocada do tom institucional que o momento exigia, foi prontamente vazada por um aliado. Sim, por um aliado. Não foi a oposição que armou a bomba. Foi alguém de dentro que acendeu o pavio.

    E, como em toda crise mal gerida, o Planalto reagiu atacando o vazamento, não o erro de origem. Lula, visivelmente irritado, chamou de “pachorra” a exposição da fala de Janja e sugeriu que o ministro incomodado deveria ter se retirado. Um escândalo tratado como problema de etiqueta. A desordem é tanta que agora o crime não é falar demais, é deixar vazar.

    Vale lembrar: essa não é a primeira vez que Janja se excede. Em novembro de 2023, durante a cúpula do G20, ela insultou o bilionário Elon Musk em um evento paralelo com a sociedade civil. Se o alvo é antipático, a fala vira símbolo de coragem. Mas não é. Bilionários não merecem condescendência — mas a liturgia do cargo exige mais do que impulsos. Exige noção. E, cada vez mais, parece faltar isso à atual primeira-dama. Janja age como militante, fala como ativista, mas ocupa um papel institucional. E sim: isso importa.

    Mais grave que os escorregões é o padrão. O governo coleciona episódios de improviso, espontaneidade mal calibrada e vazamentos desastrosos. A falta de coordenação entre os próprios aliados, o amadorismo em gerir crises e a reincidência de ruídos internos revelam não apenas desorganização, mas ausência de comando político.

    O resultado está aí: um governo que tropeça nas próprias palavras, que não controla seus quadros e que, pior, subestima os danos. O “fogo amigo” virou rotina. E a oposição? Só precisa esperar. Não é ela quem cava os buracos — é o próprio governo quem se joga neles.

    Porque, convenhamos: não foi surpresa. Foi só mais um capítulo de uma história mal ensaiada, onde o improviso reina, a vaidade ecoa e o prejuízo institucional não encontra freio. No palco internacional, o Brasil precisa de diplomacia — mas o que entregou foi espetáculo. De novo.

    – Yugi Vasconcellos